Domingo

Para Letícia, minha irmã, que teve a humildade de ler antes
para ver se estava legal. E para meus pais, sr. Antonio Luiz e
dna. Luiza, por terem lido antes ainda: é o que dá
ficar de olho por cima dos meus ombros...
“Todas as batalhas na vida servem para nos ensinar alguma coisa – inclusive aquelas que perdemos. Quando crescemos, descobrimos que defendemos mentiras, enganamos a nós mesmos e sofremos por bobagens. Se formos bons guerreiros, não nos culparemos por isso – mas tampouco deixaremos que os erros se repitam”
Paulo Coelho, in “O Monte Cinco” - 1995
João tinha saído de casa, brigado com os pais. Isso já faziam três anos quase completos. Na verdade, ia completar três anos naquele domingo. Ele passou a semana pensando sobre o que o levou a sair de casa, assim tão repentinamente. Pensou, pensou e pensou. Talvez estivesse errado... Pensava em todos os seus atos depois daquele dia e, sinceramente, passou a achar que estava errado.
***
Sr. Oliveira era um pai de família típico do Brasil: trabalhou a vida toda sustentando os filhos, e quando se aposentou, pensando que poderá ter um pouco de paz, a vida e o governo federal o obrigaram a voltar à ativa, tendo de trabalhar de sol a sol para poder sustentar a casa. Mas tinha orgulho de manter todos os seus entes queridos à sua volta: sua mulher, com quem casou há distantes trinta e quatro anos, seus netos e seus filhos, todos eles... exceto um. Ele ainda tenta resgatar na memória o porque do seu primogênito ter ido embora daquela maneira. E, mesmo sem saber o porque, se culpa.
***
Era um sábado a tarde, e João estava em sua casa alugada, bem longe da casa por onde viveu por mais de doze anos. Fragmentos daquela discussão vinham a sua cabeça a todo instante. A cada minuto que passava, sua consciência apertava mais, trazendo à tona todas as lembranças daquele dia fatídico.
- Eu não quero!
- Você já não manda em mim! Faço o que quero! Sou responsável por mim mesmo, você não pode me impedir!
- Eu sou seu pai, João, e por mais que cresca sempre serei! Se eu digo que não quero que vá trabalhar no Rio, é pro seu bem! Não quero o seu mal, mas não posso deixar...
- Mas eu quero. Tenho já 27 anos, pai, quero ir e pronto!
A mãe e os irmãos acompanhavam à distância essa discussão. Apreensivos.
- Eu acho que é besteira. Você está sendo idiota, acreditando numa promessa vaga de emprego. E se não dá certo? Eu terei de ir te buscar?
- Ah, é isso? Você se preocupa, na verdade, com as despesas que teria caso não desse certo no Rio...
- Não é isso...
- É sim! Desde criança, você regula as minhas ações, sempre decidiu as coisas por mim, até o meu corte de cabelo você que mandava fazer, do seu jeito! Agora é minha vez. Eu acredito nessa possibilidade, vou atrás dela! E, se é assim, vou embora e não volto mais!
E ele sai, fechando a porta e deixando para trás uma vida inteira.
***
Finalmente, chegou o domingo. Dia de almoço de família. Eram dez horas da manhã. Os filhos e os netos vêm chegando, e o Sr. Oliveira se entristecia a cada um que aparecia. Porque a cada um que ocupava um lugar à mesa, imaginava que João ia abrir a porta, te dar um abraço e sentar-se na mesa, ao seu lado, como sempre foi.
Naquele mesmo instante, João tomava uma importante decisão.
***
Meio-dia. A esposa do sr. Oliveira traz a comida à mesa, os filhos todos sentados, junto dos netos, noras, genros, amigos da família... e uma cadeira vazia, ao lado do velho senhor. Por causa de todas as tribulações com seu filho, ficou deprimido, parou de trabalhar, passara dificuldades. E todos acompanhavam essa depressão. O sr. Oliveira olhava a cadeira com tristeza. Os outros tentavam animá-lo, mas nada conseguiam. Já dizia aquela passagem da Bíblia: "Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da que se perdeu, até encontrá-la?" Pois é... o sr. Oliveira queria encontrar a sua ovelha.
Quando o já cansado senhor pensou, naquele momento, em desistir de sua busca, imaginando que perdera seu filho para o mundo para sempre, eis que ele entra porta adentro. Chega na cozinha, ele olha a todos, que o olham de volta. Singelamente, senta-se ao lado de seu pai e diz:
- Me passe um prato, que eu estou com fome.
E a paz foi restaurada, por todos os tempos.