sábado, 13 de agosto de 2005


"How can I forget you when there is always something there to remind me?..."
(Burt Bacharach, Hal David)

Ele saiu de casa, seguiu o mesmo caminho de sempre. Em cada lugar, uma bela lembrança. A sensação de viver em um comercial de margarina, ou na abertura de alguma novela global.

Cada árvore em que fizeram corações, cada loja em que pararam, cada lanchonete em que se beijaram ao invés de comer, fazendo inveja aos outros casais... cada lembrança o fazia sorrir imensamente.

Passou por uma floricultura. Comprou um buquê de rosas brancas, as favoritas dela, como aprendera em anos de namoro. Ali, a lembrança dos primeiros meses, felizes, de descoberta um do outro.

O caminho pelo parque, mais lembranças. os momentos a jogar pão para os patos, os piqueniques... uma sensação ruim se apoderou dele. Começou a correr.

Chegou à casa dela. Coração batendo forte, corrida muito longa. Principia o movimento de batida, mas, subitamente, ele pára.

A sensação de perda começa a tomar conta de seu espírito. Lembranças boas, lembranças ruins. Más notícias, decepções. Nova corrida.

A igreja onde pretendiam se casar e batizar seus filhos. Onde ELE pretendia se casar e batizar os filhos que anseia ter com ela. Os enfeites chamam a sua atenção.

Não, não era sonho, nem mentira. As portas se abriram e as pessoas começaram a sair, se aglomerando nos lados das escadas.

E dali, sai ela. mais linda do que nunca, cabelos presos, revelando sua nuca. O vestido com que sempre sonhou vê-la... mas o acompanhante... não é ele. Não se parece com ele. Mas a olha do mesmo jeito que ele sempre a olhou. E ela retribui, do mesmo jeito que costumava retribuí-lo, ou até com mais carinho.

Um beijo, o beijo que deveria ser em seus lábios. A dor, aquela que aperta e estraçalha o coração daqueles que foram abandonados. O chão, destino do rosto feliz daqueles que um dia amaram e foram traídos, destino do buquê comprado por aqueles que acharam que acordaram de um pesadelo, até ter a sua doce ilusão chocada com a realidade.

A rua, a mesma que lhe serviu de palco e vitrine para seus arroubos de felicidade, agora lhe serve de novo caminho, para uma nova vida, uma sobrevida, uma sub-vida. As árvores, que serviram para abrigar os corações feitos a espátula, servem agora para esconder a sua dor e suas lágrimas, para não ser percebido por aquela que, um dia, ele chamou de SUA...

7 comentários:

Felipe Policarpo disse...

Magnífico! =)
Existem situações desse tipo em que o melhor a fazer é fugir, penso eu....

Elze disse...

É impossível lutar contra o inevitável. Se fosse comigo, eu prefiro ter vivido tudo isso só uma única vez do que passar uma vida inteira sem sentir o meu coração amando. Um ótimo dia dos pais pra vcs! Bjus no coração...

Milton disse...

Oi Luiz, passei por aqui a convite do meu amigo Fê. Gostei muito do aqui encontrei. Falando-se do amor, por ter um amor, e falando-se do amor, por ter perdido um amor. Ter alguém para amar é sempre bom, principalmente quando se é correspondido, o díficil é suportar a dor, por ter perdido um grande amor seja de qual maneira for. Desejo sucesso para vocês.

Milton disse...

Esqueci de comentar que sou um grande fâ de Burt Bacharach.

Luiz H. Oliveira disse...

Tom, cara... sem palvaras... arrasou!

rafa disse...

sensacional!!! muito bom mesmo, dificil encontrar um texto com tanta sensibilidade e segurança assim...parabéns...

leo disse...

legal...