terça-feira, 18 de outubro de 2005


Começos estranhos.

Diamantes são encontrados em meio ao carvão. Alex tinha isso em mente pois acabara de ter novamente sua confiança traída.
Ele e Hamilton eram incrivelmente amigos, mas aquela amizade fortificada de três anos havia desmoronado em um minuto: O minuto em que Alex surpreendeu seu melhor amigo com sua namorada. E a dor foi até pior do que água fervente jogada sobre o ferimento em carne viva. O mundo apenas havia parado. (...)

Denise estava péssima. Sua mãe notara o apetite reduzido nos últimos dias, e que a filha não mais saía do quarto senão para ir ao banheiro ou tomar água. As refeições estavam sendo servidas no quarto.
Apesar da preocupação, a mãe preferia não se envolver nos assuntos da filha. Na certa era o término de algum namoro. Mas para Denise seria bem melhor se fosse realmente isso. Na verdade foi o término de suas poucas amizades. As garotas fingiam muito bem. Mas não foi o suficiente para não serem flagradas criticando duramente a ex-melhor amiga. (...)

Arthur havia desistido. Sempre que tentava puxar conversa com algum dos colegas de classe, era a mesma decepção. Alguns deles viravam as costas, alguns deles escapavam conversando entre si enquanto outros simplesmente riam na cara dura. Algumas vezes ele era tão requisitado que tinha de dividir sua atenção entre todos os outros alunos da sala de aula, nos dias de exame. Demorou um pouco para que ele percebesse que seu esforço jamais valeria a pena. Todos já tinham a imagem de um nerd entediante e sem graça quando se lembravam de Arthur. (...)

Estava garoando durante a tarde. O céu escurecia cada vez mais, e os transeuntes iam cessando no caminho até a praça. Agora, estavam lá, três jovens infelizes e temorosos por suas vidas. Cada um deles meditando sobre a amizade. Quê seria a amizade, tão falada entre todos? Em um dos bancos, uma garota de má reputação se reprimia pensando exatamente no quê deveria mudar para conseguir amigos verdadeiros. Ela se lembrava de todos os momentos em que aquelas garotas lhe mandaram bilhetinhos, lhe contaram as novidades e lhe disseram que a amavam com aquele tão estupidamente amor mascarado.
A alguns metros de distância estava uma outra vítima da desdita que causa a falsidade daqueles que julgamos bem. Pobre garoto traído. Que diriam seus pais se o vissem naquele estado... O filho mais alto e mais forte chorava agora como uma garotinha. “Nunca mais terei amigos, nunca mais” prometeu ele.
Um pouco afastado dos outros dois, estava um que nunca teve a chance de ter um falso amigo, pois nunca lhe deram uma chance para tê-la. A maioria deles tinha vergonha de ter um amigo estranho daquele, que só fazia uso da linguagem padrão, e tinha um certo ar arrogante. E o cara que sempre buscava e conseguia as respostas para suas perguntas se encontrava agora numa calçada, tentando responder à pergunta que havia dominado sua mente e todos os seus conhecimentos: Como é um amigo?
Três jovens, três vidas, três histórias. O céu escurecia no mundo no qual eles deixaram de viver naqueles momentos de reflexão. Naquela praça, as primeiras gotas da chuva começaram a se fundir com as lágrimas de cada um deles. Os relâmpagos acendiam suas inseguranças, os trovões atiçavam seus medos. Mais do que desesperados eles estavam, não pela tempestade que começara, mas sim pelos caminhos que tomariam agora. Aflitos pelo momento em que seus corações batiam forte, seus pensamentos dançavam em suas mentes. Tudo era muito confuso, tudo era anormal, diferente daquela tempestade. A água gelada em seus corpos nada era em comparação à suas almas congeladas no tempo. Uma tempestade era realmente natural demais. Aquela confusão inexplicável em seus mundos interiores eram o real pesadelo. Medo. Medo. Medo.
Mas um estrondo celeste, duas nuvens anunciaram que eles deveriam se proteger de alguma forma pois a tempestade ainda era perigosa. Em uma pausa nas suas meditações, os três que pensaram estar sós na praça, foram às pressas ao quiosque da praça. Os dois garotos cabisbaixos se esbarraram ao entrarem na cobertura. Denise se assustou com a presença dos dois, e sentiu que deveria dizer algo. “Olá.”. Eles responderam. Arthur percebeu os olhos inchados dos outros dois que evitavam se olhar. Arriscou dizer algo: “Tudo bem com vocês?”. A garota acenou positivamente com a cabeça, enquanto o outro ignorou a pergunta. Denise estava péssima, mas talvez aquele garoto estivesse pior. O som das gotas na cobertura se misturavam à sua voz. “Você não está bem não é?”. Alex pediu em gestos para que ela repetisse. Denise reformulou o que gostaria de dizer... Não aguentou o peso, talvez aquela fosse uma boa oportunidade de gritar “VOCÊS ESTÃO BEM? POR QUE EU NÃO ESTOU NADA BEM E PRECISO CHORAR, ESPERO QUE NÃO IRRITE VOCÊS.” E os seus berros histéricos foram a chave que abriu a porta de uma apresentação. Conversaram entre si e viram que tinham algo em comum: A vontade de encontrar alguém que os amasse, e escutasse suas novidades, e que fosse sincero, e que pudesse fazê-los entender o que é a tal – tão falada – Amizade. Havia parado de chover. E dali alguns anos eles descobririam que a pessoa que eles estavam descrevendo naquele dia eram os outros dois no quiosque. E descobriram juntos o que é um amigo.
Dedico esta a todos meus amigos, em especial à Jéssica e Ana, por dois anos nos quais eu nunca me decepcionei. Caio, Thaís, Fernanda, Vinicius por melhoraem meus dias também. E ao Luiz, pela singela homenagem e nossa amizade que supera quilômetros de distância.

6 comentários:

Tom disse...

Nossa, mãe!
Que lindo texto! E eu me vi nele... parecia que eu tinha voltado alguns anos!
Um abraço pra você, prodígio!

Luiz H. Oliveira disse...

Sem comentários. Fenomenal. E obrigado, por se lembrar de mim.

Luiz Nando disse...

Oiie!!!
Sei que ando totalmente sumido!!!
mas lembro de vc sempre, afinal, é daki da minha terrinha, e um dia a gente já se conheceu neh?!
Amizade, nossa, ela é a mais importante em tudo, se não temos um amigo, não temos nada.
E esse texto fala muito bem dissom das nossas decepções com os quais que achamos que são nossos amigos. Encontrar um é uma tarefa difícil, mas é mais difícil preservá-la!!!
Poso considerar vc um amigo ainda, pois é um ótimo garoto!!!
Está construindo um grande futuro. O Luiz tbm é de mto valor.
Espero que um dia, nós 3 possamos nos encontrar por ae.
Um grande e apertado abraço!!
=]

rogin disse...

nossa... lindo!

o bruno me disse pra entrar e ler.. valeu a pena mesmo!

^^

pdroms disse...

Tiro meu chapéu, não só ele como a camisa, a calca, o tenis e a meia que estou usando... Simplesmente ótimo o seu texto. A sua narrativa Felipe se mostra muito boa, conseguindo prender a atenção do leitor até o fim e o instigando a uma reflaxão interna sobre quantas vezes ele já fora opressor ou oprimido. Seu texto me transmitiu sentimento, meu peito apertou, e doeu, junto com os três protagonistas invisiveis à sociedade. Sabe certas vezes precisamos deixar algumas de nossas características invisíveis para não nos prejudicar. Só assim, achamos, conseguiremos ter amigos.
Amigos desafiam a física, pois conseguem ocupar o espaço que você ocupa ao mesmo tempo, conseguem prever ações, Ad-vinhar pensamentos, consolar mesmo sem saber o que se passa. Amigos amam, mesmo que não adimitam isso. Portanto, amei-nos,ame-te e vivamos.
Um forte abraço do seu futuro discipulo das artes das narrações impecáveis e conteudísticas :P

milton disse...

UAU! Este blog está infernal! :) É uma grande surpresa literária a cada semana. Estou maravilhado com a performance de vocês. Parabenizo a todos, especialmente ao meu amiguinho Fê, que eu tanto admiro. Saudade...