sábado, 1 de abril de 2006

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Andaluzia, um dia qualquer no futuro


Meu caro amigo,


Escrevo-lhe do exílio.
As coisas por aqui não andam nada fáceis.
Os tempos são de cautela e caldo de galinha – como se dizia nos velhos tempos.
Alguns valores inverteram-se outros foram suprimidos. Olha só! Ser honesto agora é qualidade!
E não se falam mais em ética, esse conceito que soa tão caro!
Outrora, os tempos eram de generais. Hoje são de generalidades. E não há mais jogo de palavras ou palavras com duplo sentido. As palavras de verdade viraram pó na esteira do tempo. A escória protege-se por hábeas corpus e hábeis advogados de rapina.
Discursos imediatistas e líderes populistas.
Dizem que aqui é o país do futuro. Lugar de um povo sem memória, sem rosto e sem raiz. Já nem se lembram mais de como se faz um país.
Este é um lugar que some da lembrança quando se fecham os olhos.
Às vezes, sinto-me como Édipo: ele não se cegou por punição, mas por excesso de informação.
De que me servem as manchetes do dia? De que adiantam links e atalhos que não levam a lugar algum?
A memória dos dias felizes é como um porta-retratos vazio.
Antes, sabíamos exatamente quem era o inimigo. Ele vestia farda e governava com mão de ferro e atos institucionais. Hoje sabemos que o inimigo continua lá, poderoso como nunca, travestido de terno-e-gravata e muitas vezes, governando por medidas provisórias
Meu caro amigo, acho que perdemos o trem da história. E como achismo não se enquadra em qualquer linha de pensamento pós-socrático nem numa estética de vanguarda, talvez Oswald, Mário, Sérgio Buarque e tantos outros, tivessem de fato razão.
Este é o lugar que precisa ser reinventado. Urgentemente.
Quando foi que nos sentimos donos desse lugar?
A cordialidade do homem tropical é seu atestado de insanidade moral e seu prenúncio de derrocada civil.
A bem da verdade, estou decepcionado com o rumo que as coisas estão tomando.
Precisamos tomar cuidado. Atrás do líder populista, que promete a redenção, tem sempre a sombra de um ditador.
Quero voltar, mas tenho medo. Não sei mais em quem confiar.
Só restou você. E a música do Chico.
E olha que já é bastante.

Sempre seu,

Fulano de Tal
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10 comentários:

Flávio Perina disse...

Falaí, meu amigo. Apesar de não concordar com vários pontos de seu texto, tenho que reconhecer qu esstá muito bem escrito (como sempre). Você não pode se esquecer que nesse país, quem ainda manda é quem tem o poder finaceiro e estão usando esse poder para tentar nos colocar, a todos, em uma vala comum, como sempre fizeram. Ainda acredito em princípios, que embora, pareçam desbotados, pode ser pela fumaça que os herdeiros dos Generais estão jogando em nossos olhos. Tomemos cuidado para não condenar os camaradas por antecipação. Vamos aguardar mais um pouco para que as coisa possam clarear, afinal, "amanhã, será outro dia"... Ainda não conseguimos dar a "volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar"... Ganhamos o Governo, mas ainda não temos o poder. Saudações socialistas...

Tom disse...

Colega... como pôde esquecer do que se faz um país?
Um país se faz de novelas e reality shows!
No mais, o texto está muito bom!
Abração!

eduardo disse...

Nossa... Carta que revela nas entrelinhas. Gostei.

PREFÁCIO DO MEU FRACASSADO LIVRO IMPERCEPTÍVEL


EM BRANCO
Uma folha em branco se traduz angústia frustração raiva tempo correndo uma idéia que ainda não se materializou em palavras ela é um fio de eletricidade que pulsa latente na minha mente quer sair do abstrato mundo das idéias deseja ser uma coisa concreta almeja ser registrada para não morrer junto comigo nem ser consumida pelo esquecimento. ( E.O.F.)

Brett Penace disse...

Simplesmente, genial! Parabéns.

Luiz Henrique Oliveira disse...

Meu amigo Wallace, não há o que dizer.

Não menos que genial.

(sempre gostei desse tema, belíssima escolha)


Parabéns, de verdade.

rick disse...

Show de bola, rapaz! Muito legal, parabéns!

Anônimo disse...

Só acho que já chegamos neste futuro... Isso já é presente!
Aqueta
aqueta.zip.net

alessandro disse...

meu caro amigo,a dorei seu texto, adoro chico

Eduardo Tenório disse...

Estava passando à caça de palavras bem ditas e, com o perdão do trocadilho, encontrei-me com suas benditas palavras. Leitura fácil, de bom entendimento e, com pitadas enormes e sagazes de conteúdo e bom humor. Olha amigo, sou apenas um leitor qualquer, não leve em consideração minha crítica, nem para seu bem, muito menos para o seu mal.
Concordo com muitas coisas e discordo de outras tantas, assim como deve ser, não é mesmo? Talvez não seja nem discordância, mas sim um outro ângulo de uma mesma idéia. Aliás, a isso devo salientar: a idéia. Você disse para tomarmos cuidado com líderes populistas, pois os mesmos são passíveis de tornarem-se ditadores. Isso ocorre porque somos levados a acreditar e esperar por líderes populistas, não pelas idéias, transformadas em ideais, que existem por trás desses líderes populistas. Para isso existem os partidos, ou pelo menos deveriam existir para isso. Assim, se nossas esperanças fossem dedicadas à Carta Magna das conjecturas dos ideais de nossos partidos, não importaria o Luís nem o Fernando, ou mesmo o Geraldo que abraçasse a missão de cumpri-las fielmente. Caso o condutor do trem ameaçasse deixá-lo descarrilar...bem, era só ver o que diria a Carta Magna neste caso: Rua com ele!!!

Rubo Jünger Medina disse...

Incrível, no decorrer da narrativa, em que o caráter da história vai se delineando, eu estava exatamente pensando no Chico. E eis que ele surge, a música surge, como um alento.
Foi bom conhece seu blog.
Abraços.