segunda-feira, 21 de maio de 2007

cena em relevo, retrato em sépia



Severino andava tranqüilo por uma rua qualquer, olhar perdido, cantarolando uma canção qualquer, dessas sem verso nem refrão. Severino padrão, igual a tantos outros que perambulam pelas ruas. De repente impulsionado por nada dobrou uma esquina, oitocentos metros depois outra & três casas depois adentrou sorrateiro por uma porta suspeita, dessas com tinta descascada & faltando número, subiu apressado quatro lances de escada & num corredor com lâmpada queimada entrou num quarto suspeito, abriu uma cachaça barata, dessas com tampinha e nome esquisito, ligou no jornal das oito & enquanto cid moreira centenário & absoluto discorria sobre os males do homem, Severino enforcou-se com a gravata nova no encanamento do banheiro malcheiroso e num canto da boca um sorriso: teria enfim a paz, seria enfim feliz, ele que quase conseguiu, quase se formou, quase se casou, quase venceu, quase subiu na vida, quase conseguiu ser ele mesmo, Severino com um quase sobrenome, como tantos outros severinos quase gente em meio ao buraco negro da cidade grande, ele um quase severino.

3 comentários:

Tom disse...

Suicídio - mistério maior que este, só as próprias Vida e Morte Severinas... (trocadilho podre intencional...)
Abraço, compa!

Flávio Perina disse...

Já que é pra fazer "trocadilho podre intencional" (hehehe) eu não puosso deixar de passar por aqui e deixar meus cumprimentos por esse misterioso conto... Eu tinha certeza que aquela voz cavernosa do Cid Moreira, um dia ainda iria matar alguém... Um abraço a todos...

Felipe Policarpo disse...

Ótima narrativa.
É impressão minha ou eu sou a pessoa mais enrolona e menos objetiva nos posts deste blog? x)