sábado, 11 de fevereiro de 2006

Pre /Conceito
ou
Como se tornar inimigo da sociedade em alguns passos



para Caio, Marina, Danilo, William e Sweet,
que me ajudaram a sair do bloqueio e conseguir voltar a escrever.


Preconceito: S. m. 1. Conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida. 2. Julgamento ou opinião formada sem se levar em conta o fato que os conteste; prejuízo. 3. P. ext. Supertição, crendice; prejuízo. 4. P. ext. Suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões, etc.

Dicionário Aurélio


Jovens são mesmo jovens e ponto final. É absurdamente normal que na adolescência os mais novos tenham vontades diferentes, por aderirem a moda vigente ou por ter um estilo diferenciado. Por exemplo, aqui do meu lado, de olho no que eu tô escrevendo, tem um moleque, de uns quinze anos, vestido inteirinho de preto, com cabelo estranho, colorido. É a moda atual. Todos, de uma maneira ou de outra, acabam por entrar na onda. Eu já passei por isso. Você, que lê esse texto agora, provavelmente também passou. Ou está passando. Sei lá.

Mas isso causa certo desconforto na sociedade, muita senhora puritana acaba torcendo o nariz e olhando torto para quem está de negro num calor de quarenta graus, por exemplo. É a maneira com que as pessoas vêem as outras. Com indiferença, com estranheza; normalmente, quem é roqueiro é visto como maconheiro, quem é junkie fica famoso por ser vândalo (e maconheiro), quem é emo tem fama de homossexual (nunca se esquecendo do maconheiro), quem tem seu próprio estilo é visto como deflagrador de uma moda passageira, que certamente levará o filho mais moço da senhora puritana acima citada a entrar na moda, e com isso também ganhar status de maconheiro. E, quem tiver a resposta por favor me avise: porque a sociedade em geral tem essa visão das pessoas? Como podem julgar alguém sem conhecer?

Isso me lembra um caso. Tudo começa com João, um adolescente de dezesseis anos, que ia a igreja toda semana, rezava, fazia catequese, aluno exemplar, com notas altas e futuro promissor. Orgulho dos pais, motivo de inveja dos primos e amigos. Ele tinha tudo para ser feliz, mas sempre se perguntava " - O que me falta?" Ele sabia que todo mundo olhava para ele como um nerd, cdf, e que com certeza seria médico, advogado ou dentista absolutamente sério.De repente, seus amigos passam a deixar o cabelo crescer, usar camisas pretas, sujas e rasgadas com os logos de bandas de heavy-metal. João pensou: porque não? E passou a ouvir o som de Iron Maiden, Mettalica, AC/DC... entrou de cabeça nisso e pensou que estava agora de bem com a sociedade. (no fundo ele se importava com isso).

Mas, agora todo mundo passou a olhá-lo como um viciado, que ouve bate-estaca para se drogar, aquela música nojenta, horrivel. Mesmo ele ainda sendo o mesmo João das notas altas na escola, da catequese, da missa, do futuro brilhante, parecia que ninguém mais olhava essas qualidades. Na missa ninguém nem sequer o olhava, só porque cantarolava "The Number of The Beast" em rodinhas de amigos. O julgavam por ser metaleiro. Ele passou a ser recusado nas rodas de amigos que curtiam MPB, por exemplo. Ou qualquer outra roda de qualquer outro assunto de qualquer outro estilo. Por que isso?
As pessoas mudaram o modo de vê-lo, e em questão de meses ele passou de boa-praça a boa-merda. E ele percebeu que o preconceito existe, não só entre negros e brancos, o que é mais comum e igualmente condenável. Mas, cada dia que passa, nota-se que até por questões ridículas, o relacionamento humano se quebra. Se alguém tem um penteado diferente, uma roupa diferente, um jeito diferente, esse alguém vai ser recebido com duas dúzias de pedras na mão. E a pessoa em si, já não importa mais. É o que o ensinamento quase medieval que vem sendo pregado a todos desde tempos que ninguém se lembra mais. E ninguém se lembra também do porque desses fundamentos terem surgido. Talvez eles tivessem validade na época de Esaú e Jacó.

Esse caso é apenas um exemplo. E tem outros muitos, que nem caberiam aqui. Questão de cultura, etnia, credo... a maneira com que uma metade da população mundial olha para a outra é de pura demagogia. E, do jeito que a carruagem ta andando, dificilmente isso vai acabar tão cedo. Por isso, se você que está lendo agora for, digamos, "diferente" como o nosso amigo Jõao, apresento duas opções, que a própria sociedade prega mesmo inconscientemente (ou não): ou mate-se ou converta-se.

10 comentários:

kahio :D disse...

Com certeza \o/
sociedade negligente, faz com que os que se importam caiam na hipocrisia e que outros façam o mesmo.
Por mais dificil que seja, não se importar pode ser a solução.
abraço :*

Sweet ( Janusi ) disse...

Luiz, vc é simplesmente
MARAVILHOSO!!!
(Lembra do q eu falei sobre comentar neste blog..então, é isso..rss)
Bjos!

Wallace Puosso disse...

rs... é Luiz... esse mundão é mesmo complexo... Já passei por situações assim, mas quando se é mais novo, as coisas não têm tanto peso. Conforme o tempo passa vamos nos importando mais com o que os outros pensam, a maneira como os outros nos vêem. Tenho uma terceira alternativa: crie anticorpos. Abração!

Philip disse...

Prabnes pelo post na cdb e concordo com vc.....abraços e volto para ler com calma....

Sergio disse...

Olá, Luiz!

Resposta tem, mas não satisfaz, porque só aprendemos a viver ou a não ter preconceitos quando se vive e se aprende com a vivência...Isso é do ser humano...Tenho 41 anos, e vivi muito isso, gosto de rock (dá pra vê pela capa do meu blog), e na adolescencia, uma mãe de amigo me via como maconheiro,sendo que o filho dela era viciado...eu, apenas experimentei uma vez...e tentava tirar o filho dela do vício, era seu irmão mais velho digamos assim, ela nada sabia ou não queria ver, que por trás daquelas jaquetas, calças remendadas e tenis sujos, tinha uma pessoa em quem ela e o filho podiam confiar...Depois soube disso...Então, na vida, quanto mais aprendemos matamos nossos preconceitos, essa é a receita...O jovens tem menos mas ainda vão passar por muita coisa até aprenderem.

Um abraço...seu texto foi 10!

Flávio Perina disse...

Falaí. COnform prometi, vou comentar em todos os textos. Ë esse o caminho: eu coloquei as pedras e vc está tentando passar por elas. O assunto é penoso, embora todos nós vamos passar e/ou já passamos por isso. Um grande abraço

Marco Santos disse...

Grande Luiz: este teu post dá panos para mangas, pernas e fundilhos. Quando eu era mais novo, confesso que não entrava no mainstream da galera. O pessoal fumava (cigarro) eu detestava e ainda detesto cigarro. A moçada enchia os cornos de birita e eu achava imbecil beber até cair. Enfim: como todo jovem tem necessidade de pertimento, tive que procurar a minha turma, de gente que pensava como eu. Não precisei violentar as minhas características.
Nunca usei nenhum tipo de droga. Tudo bem, torci para o time do Flamengo do ano passado, mas essa não conta.
Nunca completei a equação roqueiro+roupa desleixada=maconheiro. É besteira. Conheço maconheiros que não gostam de rock e roqueiros que passam longe da canabis. Acho risível o comportamento de que pretende "chocar" a sociedade e aí pendura uma caixa de pregos na cara e pinta o cabelo de rosa carmim. Quando vejo um assim digo: "típico". O cara está querendo ser diferente mas é absolutamente comum entre a comunidade (hoje em dia chamam "tribo") a que ele pertence. Para encurtar: live and let live. Aja como quiser mas que seja pela sua cabeça. Afinal de contas, temos uma, certo?
Bom texto. Um abraço!

Tom disse...

Para quê marcar os bois? Você também será marcado...

Bruna disse...

Oi Luiz,

Ás vezes acreditamos que o preconceito só existe no outro e esquecemos de nós...eu vivo dizendo que não sou preconceituosa, mas sei lá, não aceito determinadas atitudes, determinadas pessoas. Complicado....

Paulo Assumpção disse...

Infelizmente, vivemos em uma sociedade onde as pessoas são julgadas pela aparência, sem que se leve em conta o que são em essência. Apesar (ou por conta) disso, ofereço uma outra sugestão - menos radical - a quem é como o "João": mande os que te olham torto para "aquele lugar" e siga em frente. Excelente texto. Grande abraço!